sexta-feira, 25 de novembro de 2011

No devaneio da meia-noite, visitarei suas palavras.

Viver atrás de páginas e páginas de livros tem seu problema. Além de ser chamada de traça de livro ou rata de biblioteca quando criança, você corre o grave risco de se distanciar da vida real, da vida que te faz ser notada. Passei minha infância rodeada de heróis e homens comuns. Detetives, jogadoras de vôlei, mortos-vivos, amantes. Todos feitos através da grande imaginação de um escritor. Todos com o propósito de preencher sua alma e mente com conhecimento e deixar que o vazio da vida real e dos verdadeiros amigos não venham te perturbar. 
Amigos de papel são ótimos, com eles você chora quando foram feitos para isso, fica com raiva do mocinho boboca que não enxerga que aquela gata escultural está te dando mole, se apaixona pelo anti-heroi. Amigos de verdade, daqueles em que você põe a mão e sente o calor do corpo, a vibração do coração, você quase não o vê e se torna tão raro que começa a acreditar que esse ser a quem todos dizem ser especial não existe. 
Agradeço muito pelo fato de me escarafunchar em papéis mofados e amarelados, e outros ainda cheirando a novo quando pequena. Mas sinto de não ter apreciado tanto quanto podia e ter mantido ao máximo aquela amizade de infância. Aquela, que te viu brincar no tanque porque o verão estava escaldante, o porquê de fazer bico para certas coisas, ou de rolar os olhos para outras e ainda do sorriso contagiante porque ganhou aquele chup-chup (sim, aqui no sul chamamos assim, embora alguns teimam em dizer que é sacolé) de chocolate feito com água de torneira. Essa amizade sinto falta, apenas aquele saudosismo do que era inocente. Como tudo em nossa idade tão tenra. 
Os amigos de pequeno ainda estão aí, ainda dizem oi para você, mas é tão diferente, tão irreal que começo a pensar o que fiz de errado. Ah, sim! Dei mais atenção aos livros que aos seres humanos de carne e osso, de verdade, que choram e riem com você. Uma pena, ia valer a pena manter aqueles que te conheceram por quase uma vida.
É com o tempo que a gente aprende que tivemos muitos colegas (sua mãe e pai, ou os mais velhos, sempre te avisavam: "oh, esse não é amigo, é apenas coleguinha", mas você não acreditava e chegava a brigar com eles por conta disso, quanta inocência!) e que eles foram feitos para serem passageiros, meros transeuntes de ônibus. Pessoas, que vieram para te marcar o tempo e te ensinar que nada na vida é fácil. As amizades, aquelas verdadeiras, são difíceis, raras e que devem ser guardadas no coração e ditas aos quatros cantos da terra que ela existe e é de verdade. Os amigos, amigos mesmo, são aqueles que te dão bronca, que te abraçam e dizem o quanto és especial a ele sem se importar em beirar ao brega, que choram em momentos bons e ruins. Amigo de verdade vai vibrar com você de verdade, vai torcer por ti pelas maiores loucuras que fizeres para ser feliz e vai te orientar quando a corda está afrouxando de um lado. Afinal, amigo é aquele que precisa manter as telhas de sua casa inteira para que todos possam te ver e reconhecer o quanto és feliz.
Hoje, posso dizer que possuo isso. Conto nos dedos quantos tenho. A irmã que escolhi e que me aceita e me orienta, me dá bronca e se diverte comigo; a amore de mi vida, que me faz rir em certos momentos e refletir em outros; aquela a quem digo pra todos o quanto é foda e me orgulha de tê-la ao meu lado, mesmo que sendo por letras e Kbps, e não mais ao vivo e a cores. Aquele outro a quem digo que comeu o pão que o diabo amassou, mas ergueu a cabeça e hoje é alguém de novo. Aqueles que conheci a pouco e tenho certeza que o carinho que sinto por eles não é mero coleguismo, mas sim amizade, profunda, marcante, enebriante e engordante.
Amigos, que hoje me dizem o que fiz de errado e não tem vergonha em dizer em voz alta e na minha frente o quanto devo mudar e o quanto eu acertei. Amigos, não mais de papel, não mais herois imaginários; amigos, de carne, osso, sangue e palavras reais, que tocam. 
Vocês, meus queridos e estimados amigos são minha alma, meu éter, minha carne e sangue. Em vocês vejo que existo e que simplifico, com vocês sinto o que é preciso e procuro viver para partilhar, embora ainda esteja dando os primeiros passos nessa empreitada. Com vocês aprendi que a vida não é apenas livros, mas sim de vivência real, de alegrias e tristezas compartilhadas. De aprendizado. A todos  vocês, meus amados,  obrigada por tudo.


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(Os desenhos são meramente ilustrativos e foram pegos através do oráculo google.... )

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